• Kelly Rossi

Torto Arado - resenha


Autor - Itamar Vieira Junior

Editora - Todavia

Gênero - Romance Regionalista

Páginas - 264

Ano - 2019

ISBN - 9786580309313

Classificação - ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse (orelha) - "A cena tem algo de iniciático e, como se verá mais tarde, ressoará de maneira extraordinária no futuro de suas protagonistas. Nas profundezas do sertão baiano as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas - a ponto de uma precisar ser a voz da outra.

Filhas de humildes trabalhadores rurais descendentes de escravos, as irmãs irão crescer entre a extenuante rotina do campo, as tradições religiosas afro-brasileiras - com suas velas, incensos e ladainhas quase imemoriais - e a absorvente vida familiar. Com o passar dos anos, a antiga proximidade entre elas vai se desfazendo aos poucos. Enquanto Belonísia parece satisfazer-se com o serviço na fazenda e os encantamentos do pai, o curandeiro de corpo e espírito Zeca Chapéu Grande, Bibiana toma consciência do estigma da servidão imposto à família e decide lutar pelo direito à terra e pela emancipação dos trabalhadores rurais.

Numa trama conduzida com maestria e com uma prosa melodiosa, tendo quase sempre as mulheres como protagonistas, Torto arado é um romance belo e comovente que conta uma história de vida e morte, de combate e redenção. Itamar Vieira Junior não se perde, contudo, em duvidosas recriações de um idioma supostamente telúrico, nem trata seus personagens com certo paternalismo, tão daninho, que já assinalou um sem-número de tentativas, na ficção, de dar voz aos despossuídos do campo.

Pois um dos grandes trunfos deste romance é a representação - com eloquência e humanidade - dos descendentes de escravizados africanos para os quais a Abolição significou muito pouco, visto que ainda sobrevivem em situação análoga à escravidão. Tudo isso traz ao romance, para além de sua trama que atravessa vozes, gerações e temas (a memória familiar, o trauma, a exploração, o misticismo afro-brasileiro, os laços sociais), um poderoso elemento de insubordinação social que vibra muito tempo depois de terminada a leitura."


"Por que sempre queremos as coisas que parecem estar mais distantes de nós?"


Velho Nagô, Sete-Serra, Iansã, Mineiro, Marinheiro, Nadador, Cosme e Damião, Mãe d'água, Tupinambá, Tomba-Morro, Oxóssi, Pombo Roxo, Nanã e Santa Rita Pescadeira. Esses são alguns dos encantados, divindades que fazem parte da cultura do Jarê e permeiam a história de "Torto Arado". O Jarê é o "candomblé de cablocos", uma prática religiosa com matriz africana exclusiva da região da Chapada Diamantina.


"O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo."


Mesmo sendo um romance regionalista, "Torto Arado" abraça temas pertinentes de vários cantos desse Brasil. Com grande potência poética e passagens sinestésicas, o livro é cheio de camadas, personagens completas e complexas, que representam os descendentes africanos que vivem em situação de servidão, análoga à escravidão, fazendo vibrar vozes e temas ainda pouco explorados e conhecidos pela maioria dos brasileiros.


"Sentiu que desde sempre o som do mundo havia sido a sua voz."


A história não é contada de forma cronológica. São memórias, lembranças... resgatadas por Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira, narradoras dessa história.

Unidas pelo sangue e inseparáveis após um acidente trágico, as irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de humildes trabalhadores rurais descendentes de escravos, crescem em situações precárias se dividindo entre a cansativa vida no campo, as tradições religiosas e a intensa vida familiar. Com o passar do tempo, os interesses das duas divergem e a proximidade que parecia indissolúvel vai se desfazendo aos poucos.

Todo o misticismo que envolve a última parte do livro dando voz a uma encantada é um importante resgate da religião, da ancestralidade e da espiritualidade.


"Espelho não era coisa comum por ali. [...] espelho mesmo, acessível para nos observarmos, era apenas o espelho d'água dos rios com seu líquido escuro e ferruginoso, onde nos víamos negras num espelho também negro, talvez criado exatamente para nos descobrirmos."


Além do mistério proposital que o autor carrega por boa parte da narrativa para mostrar a transcendência da necessidade da linguagem, outro elemento poderoso explorado é a própria terra. A terra como fator econômico ou como sobrevivência, refúgio, vida. Ela é colocada no enredo como uma das personagens mais importantes. Transpassa toda a narrativa como protagonista do livro, assim como da história do nosso país.


"O chão das nossas casas e dos caminhos da fazenda era de terra. De barro, apenas, que também servia para fazer a comida de nossas bonecas de sabugo, e de onde brotava quase tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde todos desceriam algum dia. Ninguém escaparia."


Eu amei fazer essa leitura e aprender um pouquinho sobre as práticas da cultura do Jarê que até então eu ainda não conheia.


Beijos, um ótimo voo a todxs e até a próxima!💖📚



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