• Kelly Rossi

Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos: e outros textos em prosa - resenha


Autora - Sylvia Plath

Tradução - Ana Guadalupe

Editora - Biblioteca Azul

Gênero - Romance psicológico

Páginas - 464

Ano - 2020

ISBN - 9786555670059

Classificação - ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse (orelhas) - "Para Sylvia Plath, escrever foi pensado desde cedo como um modo de vida. E a vida, em si, como material para a escrita. Dos contos que, ainda adolescente, começou a enviar para revistas aos diários que manteve até sua morte, a autora amalgamou sentimentos, acontecimentos e impressões sobre as pessoas ao seu redor para desenvolver suas principais temáticas em prosa e verso.

Os contos, textos jornalísticos e extratos de diários reunidos em "Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos e outros textos em prosa" são exemplo disso. O Conto que dá nome ao volume bebe na mesma fonte de seu único romance. "A Redoma de Vidro": ali estão o sofrimento interior e psíquico e a presença do tratamento com eletrochoques. Em outros contos, vislumbra-se o mesmo substrato de alguns de seus poemas mais famosos. Entre vários romances não terminados, cujos originais ficaram perdidos no tempo, apenas um fragmento - "Menino de pedra com golfinho", presente nesta edição sobreviveu entre os escritos que antecederam "A Redoma de Vidro".

Esta seleção de textos abrange um longo período de produção e revela o amadurecimento literário de Plath, assim como seus temas primordiais. O sufocamento feminino - em um relacionamento amoroso e diante das expectativas da sociedade em geral - permeia alguns dos contos, como "O quinquagésimo nono urso", "A caixinha de desejos" e "Mães". Recria sua infância à beira do mar em "Oceano 1212" e seus últimos dias em "Blitz de neve", ambos retratos da mitologia própria que construiu em sua obra e que segue constantemente encantando gerações de leitores."


"Se o poema é concentrado, um punho fechado, o romance é relaxado e expansivo, uma mão aberta: tem estradas, desvios, destinos; linha do coração, linha da cabeça; envolve bons costumes e dinheiro. Enquanto o punho afasta a aturde, a mão aberta toca e abarca muitas coisas em suas viagens."


Os textos reunidos em "Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos: e outros textos em prosa" abarcam escritos da Sylvia Plath que expõem seus registros de autopunição negativa, tarefas do dia a dia, anotações magoadas sobre seus vizinhos e até tentativas constrangedoras de escrever ficção padronizada para revistas.


Desta forma, a própria autora renegou vários contos que estão nesse livro e, apesar de levar isso em conta, não deixei de ler cada página com grande fascínio.


"É mais fácil amar os estranhos nesse momento difícil. Porque eles não exigem nada e não ficam olhando, olhando sem parar."


Os contos estão ordenados cronologicamente de trás para frente. Ao ler nessa organização eu me senti voltando no tempo e penetrando cada vez mais na mente da autora.

No geral, os textos apresentam uma forte perturbação psíquica, sempre com uma figura feminina protagonizando os acontecimentos. O conto "Johnny Panic e a bíblia de sonhos", homônimo ao livro, é recheado de fantasias de uma mente irrequieta. Já o conto "A caixinha de desejos" mostra a dificuldade em viver apenas o mundo real e nunca conseguir fugir dele.


"Embora o sol estivesse alto, só algumas farpas de luz perfuravam a massa azulada e fresca das árvores."


A autora também abordou a morte e o luto de um jeito bem humano e natural com o conto "O dia em que o Sr. Prescott morreu". Já em "América! América!" e "Oceano 1212" é possível perceber traços de lembranças infantis.


O terror irônico no desfecho de "O quinquagésimo nono urso" é surpreendente. E "O domingo dos Minton" é lindo, delicado, trágico e imaginativo. Todas as cores e sentimentos empregados na história deixaram tudo extremamente visual.


"Os poetas que me fascinam são dominados por seus poemas tanto quanto pelo ritmo de sua própria respiração."


Como é possível perceber, essa leitura é uma montanha-russa de sensações. "Johnny Panic..." é um apanhado de aprendizagem. Mas o que mais me deixou atônita na escrita da Sylvia foi sua genialidade em transformar os sentimentos em algo visual, palpável. E não falo apenas de elementos belos, mas em todos os sentidos.


Alguns trechos são crus, viscerais e diretos, como esse: "Também tenho medo de gerar uma criança deformada, deficiente, que cresceria sombria e feia dentro da minha barriga, como aquela antiga podridão que sempre temi que saísse de trás dos globos dos meus olhos."


Em outro segmento, a autora descreveu o sentimento de decepção usando como analogia o pôr do sol de maneira tão magnífica que fico extasiada sempre que releio. "À sua volta, a tarde se estilhaça em um milhão de cacos de vidro. Lascas dançantes e cruéis de luz verde e azul e amarela se elevam e rodopiam ao seu redor... flocos de cor sufocantes, asfixiantes."


Fiquei ainda mais arrebatada ao ler os fragmentos de diários da Sylvia Plath, que acabou por se tornar uma das minhas autoras favoritas. Termino as minhas impressões citando uma frase da própria autora que me representa demais: "E me reconheço mais do que deveria em minhas leituras..."



Se você ainda não leu nenhuma obra da autora e não quer começar pelo romance "A Redoma de Vidro", esse livro é uma ótima oportunidade.



Beijos, um ótimo voo a todos e até a próxima!📚💕

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