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  • Foto do escritorKelly Rossi

Frio o bastante para nevar - resenha


Título Original - Cold Enough for Snow

Autora - Jessica Au

Nacionalidade - Australiana

Tradução - Fabiane Secches

Editora - Fósforo

Gênero - Romance

Páginas - 96

Ano - 2023

ISBN - 9786584568440

Classificação - 5⭐


Sinopse - "Primeiro vencedor do Novel Prize, prêmio literário coorganizado pelas prestigiosas editoras New Directions, Fitzcarraldo e Giramondo, Frio o bastante para nevar se passa nos poucos dias de uma viagem pelo Japão realizada por uma jovem australiana e sua mãe, nascida em Hong Kong. Debruçando-se sobre relações familiares complexas e a impossibilidade de se conhecer verdadeiramente o outro, a narrativa acompanha os episódios da viagem, mas também passeia por memórias da filha, que, como uma Sherazade da vida interior, sobrepõe lembranças e pensamentos ao sabor de seu fluxo de consciência. Enquanto as duas visitam museus, cafés e livrarias, ela rememora episódios da história materna, passagens da infância de ambas e dos seus anos como estudante de literatura inglesa, quando se abriram para ela horizontes que a vida de imigrante negou à sua mãe. Como de costume, essas conquistas vêm acompanhadas de perdas, e a distância que se instala entre as duas ao longo dos anos é prova disso. Na expectativa de estreitar o diálogo com a mãe, ela planeja uma viagem a um país estrangeiro às duas. “Pensei também que a primeira língua da minha mãe era o cantonês, e a minha, o inglês, e como só falávamos juntas em uma, e não na outra”, reflete a narradora conforme se dá conta da profundidade do mistério materno. Por trás da profusão de detalhes com os quais a filha preenche este relato ― melancólico como o Japão chuvoso que elas visitam ―, revela-se a brutalidade da relação entre mãe e filha. Pois, se à primeira vista este é um romance de pouca voltagem, a turbulência por baixo da sua superfície logo se torna palpável e incisiva. Durante os passeios, vemos como as questões de poder são negociadas, como a proximidade, que parece uma opção, nunca se materializa, como o passado e o presente, o eu e o outro, a arte e a vida são coisas que transitam num contínuo. Espécie de meditação literária em que os pensamentos da narradora são mais centrais do que os fatos, Frio o bastante para nevar é uma elegia à busca pelo diálogo e uma poderosa reflexão sobre o papel da arte na expressão do que não pode ser traduzido em palavras."



❄ "Enquanto caminhávamos, ela me perguntou sobre meu trabalho. A princípio não respondi, depois disse que em muitas das pinturas antigas se podia descobrir o que se chamava pentimento, uma camada anterior de algo que o artista havia escolhido pintar por cima. Às vezes, eram vestígios tão pequenos quanto um objeto ou uma cor que havia sido alterada, mas outras vezes podiam ser tão significativos quanto uma figura inteira, um animal ou um móvel. Falei que escrever era como pintar. Só dessa forma era possível voltar e mudar o passado, fazer as coisas não como foram, mas como desejávamos que tivessem sido, ou melhor, como nós as vimos. Disse que, por isso, era melhor ela não confiar em nada que lesse."


É quase possível sentir o cheiro da neve antes que ela chegue. A combinação de frio e umidade produz um aroma diferente no ar que estimula os sentidos em antecipação ao clima que se aproxima. Esse é um dos motivos que me apaixonei pelo título "Frio o bastante para nevar", mas ao ler, percebi que ele abraça detalhes que o deixa ainda mais apropriado. Jessica Au criou uma narrativa pensativa e silenciosa que é preenchida com descrições sensoriais e observações cuidadosas que ligam o mundo físico às emoções humanas não articuladas, ela segura na mão do leitor com tanta delicadeza que a sensação ao ler é de flutuar entre a lembranças da protagonista. Os fluxos de consciência embalam e acariciam com tanta suavidade que ao ler tive a sensação de mergulhar em águas quentes.


❄ "Naqueles dias, voltando da piscina depois de ter nadado, com os jardins e as árvores em plena explosão, o sol na trilha, senti algo - meu corpo como meu, forte e bronzeado, que poderia ser qualquer coisa que eu quisesse, desde que me dedicasse o bastante."


Uma narradora anônima convida sua mãe para passar férias no Japão. Ao se encontrarem em Tóquio, elas visitam galerias de arte e santuários e compartilham refeições em restaurantes. Suas conversas são transmitidas pela voz da filha em primeira pessoa e são dominadas pelas percepções da filha. A mãe parece quase espectral em sua presença e reações.

❄ "Tive um pensamento vago e exausto de que talvez não tivesse importância não entender todas as coisas, mas simplesmente vê-las e retê-las."

Gradualmente, por meio de fragmentos desconexos e não sequenciais, as histórias de fundo das mulheres vazam. A mãe, nascida na China continental, cresceu em Hong Kong. Ela deixou Hong Kong e se mudou para um país onde não conseguia mais se comunicar em sua língua nativa, o cantonês. A filha cresceu explorando novos horizontes por meio do despertar educacional e cultural em um ambiente marcadamente diferente daquele que criou sua mãe.

Mãe e filha caminham e conversam sobre coisas banais enquanto pensamentos vão e voltam no tempo. Associações com clima, objetos e comida desencadeiam pequenas explosões de memória enquanto as mulheres buscam silenciosamente um senso de conexão uma com a outra.


❄ "Ao que parecia, tínhamos nos dito muito pouco de substancial nas últimas semanas. A viagem estava quase terminando, e não tinha acontecido como eu queria. Pensei em aprender japonês, em como ainda me sentia infantil no idioma, em como só era capaz de perguntar as coisas mais simples."

A autora emprega uma prosa matizada e visualmente descritiva para apresentar uma visão de gerações que buscam uma conexão que supere as fissuras criadas pela imigração, idade e diferentes horizontes culturais. Enquanto mãe e filha têm conversas incompletas, elas de alguma forma parecem mais unidas ao compartilhar pequenos e inconsequentes momentos.

Essa leitura é muito significativa, pois desafia a explorar os relacionamentos com nossos pais, uma explosão silenciosa de sensações são mapeadas dentro de nós durante e depois da leitura. Pois, apesar de ser um livro sucinto, escrito de forma simples, está repleto de citações memoráveis ​​que reverberam e ficam com a gente por muito tempo.


Delicioso! Leiam!




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