• Kelly Rossi

A Mão Esquerda da Escuridão - resenha


Autora - Ursula K. Le Guin

Tradução - Susana L. de Alexandria

Editora - Aleph

Gênero - Ficção Científica

Páginas - 304

Ano - 2019

ISBN - 9788576574484

Classificação - ⭐⭐⭐⭐⭐🧡


Sinopse - "Enviado em uma missão intergaláctica, Genly Ai, um humano, tem como missão persuadir os governantes do planeta Gethen a se unirem a uma comunidade universal. Entretanto, Genly, mesmo depois de anos de estudo, percebe-se despreparado para a situação que lhe aguardava. Ao entrar em contato com uma cultura complexa, rica, quase medieval e com outra abordagem na relação entre os gêneros, Genly perde o controle da situação. É humano demais, e, se não conseguir repensar suas concepções de feminino e masculino, correrá o risco de destruir tanto a missão quanto a si mesmo.

Em capa dura, com pintura inédita de Marcela Cantuária e prefácio de Neil Gaiman, esta edição celebra o aniversário desta obra magistral. A mão esquerda da escuridão propõe ricas discussões sobre assuntos polêmicos e atemporais - gênero, feminismo, alteridade, filosofia e antropologia -, sendo considerado pela crítica especializada não só um dos mais importantes livros de ficção científica já escritos como também uma verdadeira obra-prima da literatura moderna."


QUÃO PEQUENOS NÓS SOMOS?


"A única coisa que torna a vida possível é a incerteza permanente e intolerável: não saber o que vem depois."


Genly Ai é um humano que foi enviado a uma missão intergalática e precisa persuadir os governantes do planeta Gheten a se unirem a uma comunidade universal. Genly tem o objetivo de mudar a vida de uma civilização planetária inteira, porém ao emergir nessa cultura totalmente complexa e diferente, ele acaba perdendo o controle da situação, colocando em risco o propósito de sua viagem e sua própria vida.


Ursula criou um universo completamente novo, tão único e magnífico, que acaba gerando estranheza ao mesmo tempo que causa deslumbramento.


"Todo nosso padrão de interação sociossexual inexiste aqui."


Nesse novo mundo, além de existirem seres alienígenas complexos e distintos sexualmente, descobrimos uma nova religião, novos conceitos sobre a morte, sobre o suicídio, sobre o gênero e sobre os relacionamentos. Lendas singulares ecoam no ambiente e na cultura de Gueten e são inseridos na história como um fator de antecipação que instigam a curiosidade do leitor. Outro elemento trabalhado de maneira sem igual é a telepatia. Ursula transforma uma curiosidade humana em algo concreto, e acompanhar a possibilidade dessa linguagem no enredo é surreal.


"Certamente não estava feliz. Felicidade tem a ver com a razão, só pode ser conquistada pela razão. O que ganhei foi uma coisa que não se pode conquistar, não se pode manter e, muitas vezes, não se pode nem reconhecer no momento; falo de júbilo."


Tudo é muito complexo e intenso. Mesmo assim, a autora não subestima seu leitor, não entrega as informações de mão beijada. Ela vai, aos pouquinhos, induzindo e motivando a descoberta desses novos mundos, fazendo a gente mergulhar na história.

"o que é patriotismo, no que consiste verdadeiramente o amor pelo país, como surge a terna lealdade que deixara embargada a voz de meu amigo - e como esse amor tão real pode se transformar, com frequência, em intolerância tão vil e insensata. Em que momento ele se torna nocivo?"


"A mão esquerda da escuridão" explora seres andróginos que possuem, ao mesmo tempo, características femininas e masculinas. Eles são assexuados na maior parte do tempo, e quando chega o momento de se relacionarem sexualmente, podem escolher qual sexo querem assumir. Ou seja, nesse universo não existe a relação de poder com base no gênero. Esse detalhe na história provoca um debate profundo sobre a sexualidade e os papéis convencionais que cada sexo assume. É uma discussão que começa no binarismo do gênero e se prolonga ao infinito de nossas complexidades.


"Um homem deseja que sua virilidade seja reconhecida, uma mulher deseja que sua feminilidade seja apreciada, por mais indiretos que sejam esse reconhecimento ou essa apreciação. Em Inverno, isso não vai existir. Julga-se ou respeita-se uma pessoa apenas como ser humano. É uma experiência espantosa."


Para mim, o ponto alto da trama foi o relacionamento de Genly e do alienígena, Estraven. Essa relação é construída com tanto cuidado e delicadeza, que é lindo de ver. O afeto, o amor e, acima de tudo, a amizade que nasce entre os dois transbordam e causam transformações intrínsecas que ecoam no espaço e tempo ao infinito. É através da convivência dos dois que somos provocados a nos desconstruir para pensar e repensar a alteridade (esse olhar do outro), o tempo, o divórcio, a linhagem, o incesto, a paternidade, a maternidade, a desigualdade de gênero, o estupro, a nomeclatura, as guerras. E tudo isso a partir de uma diferenciação simples. Porque estamos lidando com um povo que não possui distinções de gênero e sexualidade, exceto em um determinado período do mês.


"não existe nenhuma divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora/protegida, dominante/submissa, dona/escrava, ativa/passiva. Na verdade, pode-se verificar que toda a tendência ao dualismo que permeia o pensamento humano é muito reduzida, ou alterada, aqui em Inverno."


As diferenças entre Genly e Estraven são gritantes. Genly está em um lugar onde não consegue identificar os fatores considerados normais. Mas o que é normal? É tudo muito confuso para ele e aí os preconceitos afloram. Como lidar com o outro a partir desse conceito? Infelizmente, ainda olhamos para uma pessoa e esperamos algo. Esse livro mostra o quanto somos parecidos com Genly Ai e o quanto as opiniões e imagens já formadas geram tamanha estranheza em nós diante do diferente.


"Opor-se à vulgaridade é ser inevitavelmente, vulgar. Deve-se ir a outro lugar; deve-se ter outro objetivo; só então, trilha-se um caminho diferente."


E aí você pensa: um livro cheio de temas e tão complexo tem tudo para dar errado! Mas não é o que acontece aqui. A história só cresce! Conforme as páginas vão passando, o fator psicológico das personagens se aprofunda. Perceber e analisar essa nossa sociedade que não é nada estanque, mas sim cheia de conflitos e camadas, é fascinante.


"Não existe escuridão nem morte, pois todas as coisas existem na luz do Instante, e seu fim e seu início são um."


Eu me apaixonei por essa obra. Foi, sem dúvidas, a melhor leitura que fiz neste primeiro trimestre de 2021.


"Um homem que não detesta um mau governo é idiota. E se houvesse um bom governo nesta terra, seria um grande prazer servi-lo."


Você já leu esse livro ou algum outro da autora? Gosta de ficção científica com esse foco antropológico?



Beijos, um ótimo voo a todos e até a próxima!📚💕

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