• Kelly Rossi

Ruído Branco - resenha


Autor - Fábio Mariano

Editoras - Patuá e Ofícios Terrestres

Gênero - Contos

Páginas - 176

Ano - 2020

ISBN - 9786580641055

Classificação - 4,5⭐


Sinopse (orelha)- "Em Ruído Branco, Fábio Mariano nos apresenta personagens estranhos, quase disfuncionais, daqueles que marcam de maneira brilhante as boas histórias. A sua Cartago - que poderia nos remeter à mística Cartago da Tunísia, se não tivesse identidade própria - é o reflexo de um país prestes a desmoronar, onde os tênues limites entre a sanidade e a loucura, o equilíbrio e a violência, vão se apagando na medida em que suas tramas caminham para o desenlace.

O Brasil aparece em tudo de maneira muito sutil, sem que seja necessário nos lembrar de que estamos neste controverso país. Há também um permanente desejo de fuga para lugares outros como a França, Praga, Buenos Aires, os Cárpatos ou a Alemanha, algo que não nos soa estranho no tempo presente. Nos dez contos que compõem esta coletânea, o autor brinca com a metaliteratura em Território, não se esquiva de trazer a percepção feminina em Lindos pulsos, faz referências ao mestre Bukowski, e escreve com uma linguagem que beira a brutalidade e denota o caos da nossa própria existência.

Em Inferno, um dos contos deste livro, o narrador relata pequenos gestos, que vão se revelando no cotidiano de Cartago, onde destaco a crescente intolerância e a violência latente, mas que para um leitor mais desatento pode não ter significado. Porém, se estas histórias tiverem continuidade em um volume futuro, é possível que encontremos uma Cartago à beira da ruptura, com um certa sensação de que já vivemos isto antes."



Gosto muito de ler contos e ir saboreando várias experiências em um mesmo livro. Costumo ler aos pouquinhos, geralmente separo um conto por dia. Não foi o que aconteceu em "Ruído Branco". A ligação entre os contos presentes no livro atiçaram a minha curiosidade de tal forma que só larguei quando terminei a última página.


A escrita do Fábio é potente, direta e desafiadora. Ele consegue apresentar histórias corriqueiras com um olhar totalmente diverso. A abordagem inclemente de personagens intensas e excêntricas deixaram minha vivência com essa leitura ainda mais pungente.


O autor brinca com diferentes técnicas de escrita durante toda a construção de "Ruído Branco". Talvez seja por isso que o livro me pareceu uma espécie de quebra-cabeça com peças vibrantes de formas e aspectos bem distintos, que, em um primeiro momento, parecem impossíveis de montar. Os dois primeiros contos são os mais tortuosos. Li e reli até que os fragmentos começaram a fazer sentido e a expor um enredo forte e cortante.


Ao acompanhar o desevolvimento das personagens, é possível perceber o caos existêncial provocado por uma ausência palpável e chocante que encontramos em nosso cenário no dia a dia, assim como em Cartago - cidade fictícia, que além de terrítorio, não deixa de ser uma grande personagem em "Ruído Branco". Até arriscaria dizer que ela é a protagonista nesse enredo e, também, aquela que mais sofre transformações.


De todos, "Ata-me" é meu conto favorito. Mexeu demais com meus sentimentos, trata sobre autoconhecimento, um novo começo e, para mim, empatia. Segundo o próprio autor, esse conto é quase uma homenagem ao Vladimir Nabokov, que adora o tema incesto incerto.


Ruído Branco é daqueles livros para serem lidos mais de uma vez. E tenho certeza que em cada leitura, você desvenderá algum segredo que está por trás de cada página.


Se você, assim como eu, também gosta de contos e leituras desafiadoras, experimente montar esse quebra-cabeça. Mas não desista nas primeiras peças, deixe o silêncio gritar e guiar você por uma Cartago divertida e inusitada.


Ps.: tudo nessa obra tem um significado, mas você está sempre livre para ressignificar. Aproveite!


🏆Livro premiado com o ProAC 2019 da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de SP.


Beijos, um ótimo voo a todos e até a próxima!💖📚

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